Gente da nossa história:
Tereza dos Santos: mulher de fibra e de fé

Tereza dos Santos
(1938 - 1995) |
Nascida em berço humilde,
Tereza dos Santos deu o ar da graça aos 13 dias do mês de
fevereiro de 1938. O pai, Pedro Manoel dos Santos agricultor e
pescador. A mãe, Anativa Rosa de Oliveira, agricultora e artesã,
são frutos dos primeiros moradores da localidade.
Tereza nasceu normal e com o tempo os pais descobriram que algo
de errado vinha acontecendo com Tereza. Ela tinha paralisia
infantil. Na época não havia escola, assim como muitos, aprendeu
a ler e escrever com Maria Ballio, que a pé ensinava em toda a
região, depois de aprender a ler e a escrever foi só esperar
para mostrar a todos o seu talento.
Com a visita mais freqüente de turistas a partir da década 1950,
ela foi referencia de desenvolvimento artístico, comunitário e
cultural da localidade, graças a ela hoje, o bairro do Sertão da
Quina é descrito no livro de Lita Chastan - Caiçaras e Franceses
como rota do artesanato regional.
A doença deixou Tereza limitada para certos afazeres, mas isto
não a abalou. O que você faria se um filho seu não pudesse
realizar o gesto mais nobre que existe, que é ajoelhar-se para
uma conversa íntima com seu Deus ao pé da cama, “Tia Tereza”
embora não pudesse realizar isto desenvolveu técnicas próprias
de agradecimentos a Deus e de ensinamentos a população. Como era
uma pessoa muito religiosa, decidiu não ficar só no campo das
orações e sim mostrar ações que lhe dariam maior satisfação, por
si só ela é um exemplo a ser vivido, era considerado por todos
sem exceção uma lição de vida em vida.
Uma pessoa de baixa estatura que até os vinte anos teve de se
locomover em uma cadeira de rodas, empurrada pelos irmãos que
viam que seus lábios nunca se cerravam para a tristeza, sempre
radiante como o sol, dava com alegria seus conselhos a quem
chateado estivesse, emanava felicidade todos os dias, todos os
meses, o ano inteiro, isto porque ela tinha motivos para não ser
feliz. “Terezinha”, professora autodidata, recebeu vários
elogios em vida, mas a homenagem mais importante foi ter virado
patrona da escola onde ajudou a ensinar, próximo a igreja
católica.
Ela era polivalente, dinâmica e muito esforçada, era ela quem
cortava o cabelo da população, quem passou a alfabetizar
moradores do bairro, dava aulas de corte e costura, aulas de
catequese, de teatro, canto religioso, artesanato, dobraduras,
doces, salgados, tricôs, crochê, bordado, fazia curativos,
organizava festas e trabalhava nelas. Era ela, por exemplo, quem
organizava os casamentos, ela fazia a roupas dos noivos, o
cabelo da noiva, o arranjo na igreja, a escolha e o ensaio das
músicas, escolhia quem iria tocar, a cor do tapete da entrada, a
comida a ser servida, claro havia muita colaboração, bastava
passar um dia com Tereza que alguma coisa se aprendia, as
pessoas iam para aprender e iam espontaneamente.
Tereza recebeu a visita de muitas autoridades e religiosos, era
foi a ponte entre a ALA, ASEL e a comunidade. Ela tinha na ponta
da língua a data de aniversário de cada morador da região, era
comum ela dizer: “Fulano, eu já rezei por você hoje, feliz
aniversário!”. Tereza tinha a capacidade de transformar um
pequeno espaço em um “estádio de futebol”, tudo parecia grande,
imponente, valoroso e atual. Mais conhecida pela capacidade de
transformar matéria prima em obra de arte, recebeu ilustres em
sua casa, o então Prefeito de Paraty da época Edson Lacerda,
Frei Luiz Bíscaro, pessoas como Sarah de Brito, que traziam
peças de artesanato para Tereza reproduzir.
Com sua prima Catarina de Oliveira Santos, eram responsáveis na
década de 1960 por cerca de 510 artesãos do município. Eram
vendidas cerca de quatro mil peças do artesanato local, algumas
das peças tomavam rumos importantes como o MASP e Vaticano. Ela
lembrava ainda de que numa exposição nacional em 1968, realizado
em São José dos Campos, foram destaques duas peças de Ubatuba:
um Tipiti do Manoel Hilário do Sertão do Ingá, e um Jesus Cristo
entalhado na madeira do Bigode do Centro. A matéria prima
extraída era cuidadosamente estudada e das sobras eram
inventadas outras peças e cada moradora se especializada em duas
ou três peças.
O filho do prefeito de Paraty, Gustavo Lacerda, que havia
estudado fora do país uma vez produziu um filme sobre as artes
da região, o espanto foi descobrir que ele havia feito o filme
para complementar outro documentário, que foi exibido em todo o
Brasil e em Ubatuba não foi diferente, foi exibido no extinto
Cine Atlântico, prédio do antigo Fórum.
O artesanato durou por cerca de duas décadas, até os moradores
serem considerados criminosos e bandidos pelas leis ambientais
criadas em salas com ar condicionado. Ela também administrou o
prédio da ASEL no bairro, onde funcionou uma escola e o posto de
saúde, ela ainda ministrava cursos para as Irmãs da ALA, onde
também fez aulas de canto com as irmãs Petrina, Silvia Maria e
Hercília com o apoio do Frei Vitório Fantini, seu canto era
balsamo para os ouvidos, era fácil descobrir a voz de Tereza em
meio a multidão, muitos hoje sentem saudades daquela voz divina,
que a Deus cantava com os anjos.
Mesmo com dificuldades acompanhava as procissões da época.
Recebeu a visita de dois famosos da época da Rádio Aparecida,
era Tatu e Tatá, que não se apresentaram como artistas, mas com
o turistas comuns, por conta da visita, Tereza foi a Aparecida
do Norte uma única vez e lá participou de um programa de rádio
ao vivo chamado “Sertão do meu Brasil”, foi uma tarde de
entrevistas e havia ainda um concurso de frases e rimas. Tereza
então apresentou a seguinte frase: “Nossa senhora Aparecida,
Rainha da Terra e do Céu, Livrai o nosso Tatu, Pra não cair no
mundéu”, a frase não foi escolhida, mas causou muita repercussão
pela originalidade.
Em 1969, numa semana que antecedia o aniversário de Ubatuba,
Tereza foi convidada pelo então prefeito Cicillo Matarazzo, o
Presidente da Câmara senhor Morgado e o farmacêutico Seu
Filhinho, em caráter de urgência, a preparar algo para as
festividades do aniversário de Ubatuba. Em uma semana ela formou
um coral e no dia e hora marcada uma Kombi veio buscá-los, meio
acanhados cantaram para a multidão, o espanto foi quando
terminou, a população aplaudiu de pé por vários minutos. Na
semana seguinte o prefeito os convidou novamente para uma
apresentação em sua casa, lá estavam empresários, políticos,
juizes e outras autoridades, também foram aplaudidos de pé.
Infelizmente nada dura para sempre e com Tereza não foi
diferente, com o agravamento da sua situação, os problemas de
saúde foram debilitando-a e Deus calou a voz da filha do Sertão
do meu Brasil mais cedo, era madrugada de 24 de Julho de 1995.
Mais uma enciclopédia da nossa cultura se foi, as páginas da
história escritas por ela permanecem nas estrelas e seu nome
estampado nas camisas de muitas crianças de uma das escolas mais
antigas da região. Perdemos Tereza, mas graças a ela ganhamos
nossa identidade.
EZEQUIEL DOS
SANTOS