Gente da nossa história:
Maria e Fidencio somam 2 séculos de
história pra contar

Maria e Fidêncio: uma
casal de exemplo |
“Amar pra ser amado” foi assim,
baseando-se nesta frase que foram criados junto com os
familiares e amigos. Único casal vivo que guarda os reais
segredos da aparição da santa Nossa Senhora das Graças no Morro
do São Cruzeiro no Sertão da Quina, seu Fidencio e tia Maria
possuem juntos 202 anos de vida e muita história pra contar.
Ele nasceu Fidencio Manoel de Oliveira em 16 de novembro de 1907
na Praia da Fortaleza. Ela Maria Gaspar dos Santos nascida em 29
de junho de 1912 no Sertão da Maranduba (S. da Quina), filha de
Messias Manoel Gaspar dos Santos e Antonia de Amorim, neta de
Manoel Gaspar dos Santos e Rosa Félix Gaspar de Jesus, um dos
casais que fundaram a região. Ele, filho do segundo casamento de
Manoel Zacarias e Maria Bernardina de Santana, seus irmãos são:
João Zacarias, Valdevino, Sebastiana, Benedita e Maria
Conceição. O casal teve os filhos: José, Zacarias, Braz,
Fidencio, Pedro, Sebastião, Maria Conceição, Maria de Oliveira e
Manoel Fidencio. Todos criados com muito sacrifício mais com
muito amor para dar e distribuir. Maria foi até “ama” de leite
de vários meninos, hoje alguns são avós.
Casaram no dia de todas as almas e todos os santos- 31 de
novembro de 1928, isso mesmo possuem 82 anos de casamento. Seu
Fidencio relata que ganhou de presente de casamento 1.500 pés de
café, 1.000 pés de laranja e dois alqueires de mandioca “pra
capiná”. Os noivos e convidados foram um dia antes a cidade para
o casório, levaram quatro horas e meia a pé. Lá fizeram um pouso
para casar na parte da manha para dar tempo de chegar em casa
casado e fazer a primeira refeição como marido e mulher
literalmente a luz de velas (fifó-lamparina). Na chegada tiveram
de atravessar o Rio Grande (Maranduba) sobre um tronco talhado
que servia de ponte. Os homens carregavam as mulheres no colo
para não se molharem. Fidencio cavalheiro como era foi
atravessar com a Ana Correia e como o tronco estava molhado os
dois caíram na água e o agora marido molhou o terno branco que
vestia.
Ele trabalhou na prefeitura com o prefeito Cel. Ernesto de
Oliveira, sua função era ascender e apagar o pavio das
lamparinas da rede publica de iluminação no centro da cidade.
Trabalhou ainda na Santa Casa e na fazenda Jundiaquara. Depois
trabalhou na Fazenda dos Ingleses na Vila de Santo Antonio
(Caraguatatuba). Lá jogou futebol na posição de ponta esquerda,
aprendeu Kung Fu e Box, era 1925. Ela quando menina participou
de todas as visitas da Imaculada a este território. Foi peça
fundamental na montagem do único documentário em vídeo sobre a
historia da aparição. Muitos outros depoimentos não foram
publicados por solicitação de Maria.
Ela é dona de uma musica que aprendeu em sonho, foi por
indicação da Virgem, também de uma oração para rosário que só
existe aqui em todo o planeta. Quando fala sobre o tema,
lagrimas correm em seu lindo rosto, percebe-se que é pela
descrença e perda do respeito sobre o tema e também pela
felicidade que a aguarda. Suas orações e cantos saem de sua boca
como se não fosse ela que esta dizendo. Sai como doce e como
canto de pássaro.
Ela ainda recorda das grandes roças na Pedra Preta, de mandioca
brava para farinha, café, banana, dos feijões de corda como a
fava, rama doce para acompanhar o café e da Mulaé, segundo
moradores a rama de mandioca mais antiga do Brasil, espécie que
foi trazida pelos negros escravos. Maria é da Irmandade Sagrado
Coração de Jesus e da Legião de Maria, devoção deixada a pedido
da Imaculada em 1915-17, a qual não participa por conta das
condições físicas, mas todos sabem que participa na fé, que é
inabalável. “É tanta pouca-vergonha hoje em dia, que se
soubessem o que os aguarda pediriam perdão a Virgem”, desabafa
Maria.
Perguntado o que eles aguardam a resposta foi curta: “DEUS”.
Quando casaram as únicas coisas que compravam era a querosene,
sal, “fórfi” (fósforo), sapato e fazendas de panos. Fidencio
trabalhava com as tamancas (calçado) de madeira, algumas eram
produzidas em Ubatuba na antiga Fazenda Usina Velha. As mais
chiques eram trazidas de Portugal, umas abertas e outras
fechadas. A fazenda Usina Velha tinha trazido do Porto de São
Sebastião do Rio de Janeiro um automóvel que era a fascinação de
todos. Um dia um pneu furou e o estepe tinha de esperar chegar
de Portugal, mais um carpinteiro muito bom de Ubatuba
providenciou uma roda completa de madeira, a fama do carpinteiro
cresceu ainda mais. Muita gente passava pelo carreiro desta
fazenda para ouvir o ronco do motor do “automóver”.
Ele ainda tem a replica de legítima Henrique Laporte,
cartucheira de 1925 com peças de vidro calibre 40. Sempre
simples o casal é hoje Patrimônio da região. Quando Fidencio
nasceu o Sertão da Quina tinha pouco mais de setenta anos de
vida. Chegou a ver muitos escravos bisavós dos remanescentes
quilombolas da Ubatuba atual. Seus detalhes impressionam. Ao
conhecer a vida deles e de tantos outros descobrimos que mesmo
com a vida dura a região era linda e as pessoas não eram tão
gananciosas como hoje, que a nossa vida é cheia de frescura, com
o dizia minha avó. Tratavam-se pessoas puras, mesmo com o inicio
da especulação imobiliária e a tomada das terras, como bem
relata o livro Ubatuba Terra e População da Mestra Maria Luiza
Marcilia.
Ao ver a paz que buscam neste tempo e o silencio mostram a
sabedoria que cabe a nós tirar o chapéu e agradecer a Deus pelo
privilégio e a honra de të-los como testemunhas oculares da
história e da formação de nosso país. Principalmente a mim que
ouviu, sentiu, abraçou, falou com Fidencio e Maria. Ao pedir a
benção a este casal parece-me que pedi a todos que um dia
conheci e partiram, num coro imagino ouvir o “Deus Te Abençoe,
Te Guarde e Te Proteja Meu Filho”. Confesso que não tem dinheiro
que pague esta sensação, uma das prazerosas que vivenciei.
EZEQUIEL DOS
SANTOS