Gente da nossa história:
Maria Balio: a mulher que virou
lenda

Maria das Dores Balio Fava
(1914 - 2005) |
Na região norte de Ubatuba, na
praia da Justa (ao lado da Praia do Ubatumirim) a menina Maria
das Dores Balio Fava “estreava” para o mundo. Filha de Antonio
Silva Balio e Estefania Balio, ela nasceu no dia nove de junho
de 1914 e seu destino, ou melhor, o do município, teria boas
surpresas.
Cedo perdeu a mãe, ficando aos cuidados de um tio. Seu pai
mudou-se para a cidade e aos 10 anos ela é matriculada no grupo
escolar Dr. Esteves (única escola da época). Foi lá que ela
completou o quarto ano de grupo, como chamavam naquela época. Já
com o diploma na mão, lecionava para 1ª e 2ª séries, só que um
outro professor é quem assinava o ponto, já que não tinha idade
para receber o salário.
Com toda a família, seu pai mudou em 1930, para a Maranduba.
Moça bonita e “prendada” como era, enamorou-se e casou com
Hilário do Prado em 1936, desta união, nasceram o Sebastião, a
Cida, o Zezinho, a Ceci, o Toninho, o João, a Dita e a
Terezinha. Carinhosamente chamada por Mariazinha ela, em 1937,
costurou e confeccionou inúmeras roupas de cama para o Hotel
Idalina Graça, que ficava ali na Praça Exaltação à Santa Cruz e
que recebeu quase todas as autoridades na comemoração do III
Centenário de Ubatuba.
Em lembranças de suas falas, ela recordava-se dos detalhes
daquele acontecimento. Após as comemorações, seu marido recebeu
a nomeação de vigilante da Ilha Anchieta, onde morou com ele e
tiveram sua segunda filha. Depois foi carcereiro.
Passado esta experiência, mudou- se para o Sertão da Quina e seu
esposo veio trabalhar com seu pai, João do Prado, no engenho de
pinga (onde hoje é o posto de saúde Izabel Félix dos Santos).
Neste período seu esposo faleceu. Com a situação difícil, não
viu alternativa senão vender o engenho.
Seu pai, vendo a luta de Maria, convidou-a para morar na cidade,
mas ela não aceitou, pois tinha muitos filhos e na região
poderia criá-los da forma que Deus permitia. Lavando roupas,
fazendo doces e costurando ela ia sustentando os filhos à beira
da praia, onde construiu uma casa (ao lado do Cruzeiro).
Na década de 50, com o inicio da construção da rodovia, aumentou
o serviço de lavar roupas, já que o numero de trabalhadores
havia aumentado. O telegrafo que tinha só duas linhas, uma na
Praia da Justa e outra na Maranduba, era o único meio de
comunicação de Paraty a Santos.
Maria Balio casou-se novamente, desta vez com Mario Fava e
tiveram as filhas Julia e Otilia. Ela sempre foi o elo entre as
necessidades dos moradores e os que tinham por obrigação
atendê-los. Com a ajuda do poder público ou não, ela era quem
resolvia as coisas. Era adepta dos mutirões, fortalecendo a
estrutura local e a manutenção dos vínculos fraternais entre as
pessoas. Muitos se recordam do mutirão para a reconstrução da
igreja que havia sido derrubada por um comerciante.
Seu envolvimento fez com que conhecesse muitas pessoas e foi
numa destas andanças a colaboração de algum morador que
conheceu. Virgínia Lefreve, que sabendo de suas habilidades
convidou-a para lecionar na Caçandoca como professora leiga, era
1956. Ela participou do Programa de Educação Pró e Saúde de
Virginia, que levava material às escolas como leite, material
escolar e remédios. Era da época do leite em pedra, que tinha de
bater, esquentar água e só depois servir às crianças.
Aos amigos e parentes, ela dizia que no primeiro dia de aula
chegou atrasada, pois o cavalo que a levava havia caído com ela
de uma “pinguela”. De qualquer forma, chegou à sala de aula
molhada e a pé. “Todos acham que é mentira minha principalmente
por conta da data”, recordava. Os meios de transporte de Maria
Balio foram: sandálias, canoa, cavalo e a bicicleta.
O ponto de encontro da região era sua casa, todas as autoridades
vinham a ela, que era um excelente cabo eleitoral. Por conta
destas visitas, Maria Balio recebeu do ex-prefeito José
Fernandes o convite para ela organizar uma escola no bairro do
Sertão da Quina. Na realidade não foi construída, o prédio foi o
resultado do aproveitamento de uma antiga casa, que hoje é a
escola que leva o nome de sua amiga
Tereza dos Santos.
Uma vez ela solicitou ao prefeito a troca do telhado da escola,
já que estava em péssimas condições, ele (prefeito) dizia que
não dava para atender. Inconformada com a decisão, Maria reuniu
alguns moradores e pediu que eles tirassem todo o telhado e
amontoassem ali próximo para depois levarem as suas casas. Então
Maria foi à cidade e lá informou ao prefeito que um vendaval
havia destelhado a escola, e que, mais do que depressa teriam de
trocar o telhado. O telhado foi tirado, a telha e as madeiras
foram amontoadas. Detalhe: só esqueceram de levar do local. O
prefeito em visita a escola, olhou aquela situação virou para
ela e disse: “Que vento estranho! Ele amontoa as telhas e o
madeiramento direitinho!”. A situação foi cômica e Maria contou
que ela é quem tinha mandado tirar o telhado. O prefeito depois
de rir muito, mandou construir um telhado novo.
O local era cercado de roças e
os documentos da época vinham até com o seu nome datilografado:
INCRA de fulano de tal, “Aos cuidados de Dona Maria Balio”.
Podia ser o lugar mais longe da região, ela fazia questão de
entregar. Ela ainda como professora ia à casa dos pais saber o
que havia acontecido com o aluno que não compareceu a aula no
dia anterior. O rio Maranduba, ou Água Branca vivia inundando a
parte baixa do bairro, era comum, na hora de ir embora ela
enfrentar enchentes com água pela cintura depois das aulas.
Maria colaborava nas realizações das grandes festas e procissões
dos bairros, ela foi retratada em muitas fotos. Em 1956, ela foi
convidada pelo Dr. Alberto Santos para ser vereadora. Naquela
época, vereador não recebia salário. Ela enfrentou injustamente
um processo de cassação, que não teve êxito. Sua atuação
política falava por si e com isto almejava sucesso em suas
empreitadas. Suas ações fizeram que fosse eleita por 13 anos
consecutivos, nos governos do Dr. Alberto Santos, Wilson
Abirached e Ciccilio Matarazzo.
Ela havia ganhado as eleições
com uma votação expressiva na época, eleita com mais de 200
votos, isso na primeira disputa, onde se deslocavam para votar
de canoa, a pé ou com os poucos cavalos. Pode-se dizer que ela
tinha duas grandes paixões em sua vida: os filhos e a vida
pública, que é traduzida como ajudar realmente aos outros.
Muitos moradores são frutos dos ensinamentos e ações de Maria
Balio.
Ela é responsável por
construções de escolas no Sertão da Quina, Tabatinga, Lagoinha e
da Maranduba. Na Lagoinha travou uma briga com o prefeito, que
não queria atendê-la. Insistente que era conseguiu que o
prefeito mandasse o material para a construção da escola, que
era na realidade um galpão aberto, escola esta que duraram três
dias, o vento de “fora” soprou forte demais que entrou no galpão
e ao subir arrancou o telhado. Mesmo assim, ela levou os alunos
até a Fazenda Bom Descanso para estudarem. A da Maranduba
recebeu o nome de Virgínia Lefreve, que através de um deputado
estadual conhecido, solicitou que fosse dado o nome de sua
grande amiga e pessoa que havia oferecido a ela a oportunidade
de ensinar na região.
Ela trabalhou muitos anos na
área da saúde, nesta área ela foi considerada a “Mãe da
Pobreza”, ela ajudava muita gente, desde roupas até comida.
“Quando faltava médico, dependendo da situação ela atendia os
pacientes, quando o médico vinha, ela passava o ocorrido ao
médico e este lhe dava os parabéns”, diz emocionado Sebastião
Jesuíno de Oliveira, 73, que tratava Maria Balio como sua
segunda mãe. Na época da catástrofe em Caraguatatuba ela ficou
vários dias no bairro do Getuba sem vir para casa, sua missão
era vacinar todos que iam e voltavam do trabalho de resgate e
apoio as vítimas.
Na saúde ela se aposentou. Sua
casa sempre recebeu médicos, políticos, jornalistas e
autoridades, foi até sede da casa paroquial. Muitos têm orgulho
de tê-la conhecido, imaginem os filhos? No dia 23 de julho de
2003, ela teve uma grata surpresa. A Câmara Municipal de Ubatuba
teve a honra de realizar uma Sessão Solene em sua homenagem. Lá
compareceu família, amigos, ex- -alunos, autoridades,
conhecidos, ex-prefeito, imprensa. Feliz, no microfone ela
desabafou: “Eu pensei que ia embora sem ser reconhecida”.
Maria Balio faleceu no dia 13
de abril de 2005, sua partida causou comoção no município. Mais
uma enciclopédia de nossa história havia partido, mesmo quem não
a conhecia chorou lágrimas sinceras. Mulher guerreira,
empreendedora, dotada de uma memória invejável, a frente de seu
tempo, lutadora, de visão ampla e que virou referencia em
Ubatuba de político, pessoa, mulher, filha, esposa e mãe.
Para o ex-vereador e
ex-presidente da Camara de Ubatuba, Eduardo de Souza Neto, ela é
considerada a personalidade feminina mais importante do
município. Seus esforços, deste os mais simples aos grandiosos
lhe deram dignidade e muito respeito.
Quem a conheceu se sente iluminado, privilegiado. Quem ouviu sua
voz, tocou em sua mão, caminhou ao seu lado fala de uma
personagem que não faz mais parte de nossa história, mas sim
diz, em letras maiúsculas, que MARIA BALIO É A MULHER QUE VIROU
LENDA em Ubatuba.
EZEQUIEL DOS
SANTOS