Gente da nossa história:
Manoel Pedro dos Santos: O homem das
sementes, frutos e flores

Manoel Pedro dos Santos
(1922 - 2009) |
No primeiro dia de julho de
1922, nascia Manoel Pedro dos Santos, o primogênito do casal
Pedro Manoel dos Santos e Anativa Rosa de Oliveira, numa casa
simples feita de pau-a-pique, nos fundos um pequeno riacho e a
frente na várzea roças de milho, café, mandioca, cana, bananal,
laranjas e hortaliças. Do outro lado o verde esmeralda da
floresta que dava o sustento e o medicamento para a
sobrevivência da época.
Seu pai era mais conhecido por Pedro Gaspar e com os irmãos
Hilário Gaspar, Messias Manoel, João Manoel (Rosa), Benedito
Manoel e Maria Aparecida desbravaram o lugar. Mané Pedro, como
carinhosamente era conhecido só foi registrado no dia 10 daquele
mês, coisa normal para a época.
Filho da segunda geração e mais velho de uma família de nove
irmãos, dividiu o teto com a Maria, Vicente, Luzia, Benedito,
Benedita, Tereza, José e João. Sua infância foi cercada por
emoções fortes, a vida na época lhe dava oportunidades de
conhecer melhor as plantas, os animais, os peixes, as raízes.
Cresceu junto aos mutirões e as rezas de rosários frente ao
altar simples sobre um chão forrado de esteira de taboa. Seu pai
era proprietário de panos de rede feito à mão de cabo de imbira
de Jequitibá.
Quando jovem estudou com
Tião Pedro e Emidio Luiz de Deus na
primeira escola da região que ficava próxima a boca da barra da
Maranduba, na estrada da Caçandoca. Foi convidado por João do
Prado a trabalhar na Companhia dos Ingleses em Santo Antonio de
Caraguatatuba. Lá dedicou - se a cuidar das grandes plantações.
Seus tratos com as plantas o deram o cargo de feitor. Sua
dedicação ao serviço e aos camaradas lhe deu popularidade.
De corpo esguio e forte, uma vez foi convidado a substituir
alguém no time de futebol da Companhia. O espanto foi geral, já
que ninguém imaginaria que Manoel tinha tantas habilidades
atléticas e futebolísticas. Era comum vê-lo descalço, mesmo
depois de certa idade, continuava a andar descalço, só colocava
um calçado se fosse extremamente necessário, para um casamento,
por exemplo. Mas para jogar futebol tinha de colocar uma
chuteira, já que começava a participar dos campeonatos fora da
companhia.
O calçado era caro e só tinha uma forma de ganhar a chuteira,
participar da maratona inglesa que existia na fazenda no mês de
setembro, que como prêmio ganhava um par de chuteiras.
Tratava-se de um percurso de 20 quilômetros. A largada era no
escritório, passava pelo Queixo DAnta, Poiares e chegava
novamente ao escritório. O jovem Manoel se arriscou, ganhando a
corrida e a chuteira, ainda com uma larga vantagem sobre o
segundo colocado.
Segundo seu primo-irmão-compadre Benedito Manoel dos Santos (Kito),
81, ele ganhou por seis anos seguidos a corrida, foi o tempo que
ele trabalhou e morou na fazenda. Na companhia era um dos
melhores jogadores de futebol. Lá ganhou o apelido de Sabú e
jogava pelo Anglo Frigorífico no litoral norte, sul e Vale do
Paraíba. Manoel foi um dos poucos feitores que trabalhara em
todos os sítios da companhia: Lagoa, Ponto Chique, Empresa
(escritório), Camburu, Sitio Velho, Gentil, Pirassununga
(Petrobras), Queixo Danta, Poiares e Canivetal. Quando trabalhou
na fazenda era o responsável pelas roupas dos irmãos, pelo
querosene da casa. Uma coisa que é muito lembrado pelos irmãos é
de quando ele trazia os pães portugueses, os pequenos não
esperavam a hora do café para comer aqueles grandes pedaços de
pães. Já não tomavam o café “intirume” (sem acompanhamento).
Conhecido como homem corajoso, quem quisesse falar com ele
raramente o encontrava em casa, pois saía cedo e só voltava à
noite, sua paixão eram as hortas, as plantas, os frutos.
Através de João do Prado, Manoel conheceu Rita Maria do Prado,
depois de pedir ao Mané Pedreira (pai da Rita) enamoram-se,
desse romance saiu o casório, do matrimônio nasceu Maria,
Cleuza, Tibinha e Jairo. Tudo que se imagina de construção e
benfeitoria da época ele participou: capela, estrada, ponte,
barreadas, derrubadas, roçadas, pescaria, corte de canoas,
viamento, Folia de Reis, festas, fogueiras, caçadas, pescarias.
Dono de uma voz rouca e conhecedor do tempo era um hábil
caçador. Ainda jovem, junto com outros, sempre acompanhava seus
tios e pais nos mutirões. Era comum cada mutirão ter pelo menos
50 pessoas, ninguém recebia e nem fazia questão de qualquer
ordenado. De tudo ele plantava. Por certo período foi
responsável pelos bananais da região. Ele é quem recebia o
dinheiro e depois repassava aos compadres. Eram cerca de 300
cachos por quinzena, que eram levados no caminhão Ford de
Antenor Flávio, que depois eram vendidos aos depósitos em São
Jose dos Campos. Manoel trabalhou para abrir a estrada que hoje
conhecemos por Benedito Antonio Eloi, com ele trabalharam o
Tibitilói (Benedito Elói), Dito Gomes, Dito Correa, Mane Adolfo,
Miguel Generoso e Luiz Cilino. Já o caminho até a “préia”
(praia), trabalhou Ditinho Messias, João Rosa, André Pereira,
Salustiano Felix, Anastácio Felix, Aristides Isaias.
O trecho do Morro do Foge ficaram como responsáveis o jovem Dito
Felix, Kito, Dito Noé, Thomaz e Mané Pedro, no lugar havia um
toco estranho e muitas lendas de assombrações. Depois foi
administrador da Fazenda Bom Descanso. Trabalhou ainda na Sucen,
onde viu sua saúde comprometer-se. Na época, por orientação do
estado, os trabalhadores manipulavam o BHC sem nenhuma proteção
e os que sobreviveram sofrem com os efeitos deste veneno.
Chegou a trabalhar no corte de caixeta até na Picinguaba, onde
fez vários amigos com o Pedro Baitaca. Para esta atividade, eles
faziam uma vala na lateral do caixetal, cortavam as peças,
empurravam pela vala até chegar ao rio, depois empurravam pelo
rio até chegar à barra da Maranduba, que eram embarcados para
Santos pelos barcos São Manoel e São Paulo. Homem de fé
verdadeira que vivia ajudando os outros, tirava sua camisa para
oferecer a quem não tinha e adorava fazer hortas, que não
vendia, dava aos outros. Mas nem só de trabalho viveu este
homem, vindo de família que dominava a musicalidade, Mané Pedro
não fugiu a regra, tocava viola e cavaquinho. Acompanhava sempre
as Folias de Reis e sempre participou como festeiro na festa de
São Pedro na casa do tio Messias Manoel, festa de São João na
casa do tio João Rosa e de Santo Antonio na casa de Anastácio
Felix. Também vivia com a “agenda” lotada para os “bate-pé,
função” que eram na casa do Mané Correia (cachoeira), João do
Prado (posto de saúde), João Antunes (Dito Gil) e Onofre Barra
Seca (Botujuru).
Mané Pedro foi sócio proprietário do Santa Cruz (antes do atual
sitio), apaixonado por plantas cultivou de tudo, até uma espécie
de laranja que havia trazido da companhia, a laranja Valencia,
que nascia igual a um maracujá, em tralha ele plantou. Dono de
um etnoconhecimento invejável foi passando o que sabia a quem
lhe perguntava sobre a floresta, as plantas, os bichos. Com
idade avançada vivia ainda cuidando das plantas que ficavam ao
redor de sua casa, gostava de hortas, tudo que tivesse cheiro de
terra e raiz o aproximava. Tinha duas paixões na vida, a família
e as plantas. Sua paixão por plantas era tanta que parecia que
as plantas que eram tocadas por ele sentiam uma grande
satisfação, além de gostar, ele sabia o que estava fazendo.
Pode-se dizer que se trata do primeiro Técnico em Olericultura
Orgânica Tupiniquim da região.
Ele vivia levando como presente aos amigos e familiares sementes
e frutas das suas plantações. Manoel foi bom neto, filho, pai,
avô. Amigo e companheiro nunca deixou os camaradas na mão, homem
que gostava de andar descalço, por que era forma que via de
sentir a natureza, esse Dom de Deus, dizia ele.
Existem várias fotos em que ele está tocando em alguma folha ou
esta com um ramo de planta na mão. Fotos ainda da sua
participação nos eventos religiosos, com a cruz nos ombros
subindo o morro do São Cruzeiro. Nestas fotos tentamos imaginar
o que os seus olhos viram, o que ele ainda quer passar as
futuras gerações. Ele fazia questão de mostrar suas obras e seu
conhecimento. Era adepto das coisas naturais, das coisas
simples. Quem o via andar pelas ruas mal podia imaginar que por
detrás daquele corpo havia um sábio sobre natureza, sobre a
vida, que desde cedo suou muito para conquistar seu espaço no
tempo e na história.
Mané Pedro foi fazer uma horta no jardim de Deus no dia 02 de
agosto de 2009, resta agora tocar naquilo que ele deixou, as
plantas que ficaram em sua casa para continuar sua história,
principalmente o pé de jabuticaba que tanto estimava. Obrigado
por seus ensinamentos tio, a sua benção...
EZEQUIEL DOS
SANTOS