Manhas e artimanhas do
cacique Cunhambebe

Cacique Cunhambebe |
Depois que eu decidi contar
neste jornal o que é, como surgiu e o que deve ser feito com a
“maldição de Cunhambebe” que inferniza Ubatuba há mais de três
séculos, fui procurado por muitas pessoas interessadas em
maiores detalhes sobre o veterano cacique. Pouco pude
acrescentar ao que eu já havia dito, mas para espanto meu,
aconteceu uma coisa extraordinária.
O próprio Cunhambebe apareceu em minha casa anteontem durante a
madrugada. Como moro na avenida do Cruzeiro, disse-me que é por
ali que passa seus dias, organizando todos os movimentos para
ver permanentemente cumprida sua conhecida maldição, e depois
que eu a revelei resolveu se apresentar, quis me conhecer e se
dar a conhecer.
Realmente a história tem razão, é um tipo grandalhão, de fala
mansa e gago. Me pareceu um sujeito alegre e gozador apesar do
aspecto sombrio, dos olhos terríveis e duros e da enorme
cicatriz que vai de um lado a outro do peito. Contou que observa
quem chega, quem sai e o que fazem na cidade, aí então vai
desfazendo as iniciativas, pondo pedras no caminho e trabalhando
há séculos para irritar e prejudicar os descendentes, amigos e
convidados daqueles portugueses que humilharam seu povo.
Disse-me que anda meio cansado desse assunto mas, como foi ele
que lançou a maldição, ficou eternamente comprometido com sua
perfeita realização. Outros caciques o ajudaram nos primeiros
duzentos e cinqüenta anos, porém acharam que já era demais e se
foram. Ele, teimoso e determinado como sempre, se mantém ligado
em tudo que acontece. Comentou que a cidade cresceu muito
ultimamente, com muita gente que veio de fora sendo também
vítimas de sua maldição, mas que era isso mesmo que ele queria.
Quanto mais gente, mais problemas e pior os governantes, foi o
que ele disse.
Conversa vai, conversa vem convidei-o a dar uma volta para que
me mostrasse como agia para que as coisas não dessem certo por
aqui. Levou-me para o alto do morro do Matarazzo que ele chamou
de Curuçá-mirim dizendo que de lá, onde estava antigamente sua
aldeia, podia avistar toda a baía e a cidade, acompanhando os
passos das pessoas e o que faziam. Disse que ficava por lá
porque se sentia bem naquele terreno velho conhecido, e que sua
condição de cacique secular o permitia estar em todos os lugares
e ver tudo ao mesmo tempo.
Contou que a primeira coisa que fazia era retirar das pessoas
sua capacidade de reclamar e de cooperar, introduzindo em seu
lugar o sentimento de inveja e a prática da futrica. Só isso,
disse ele, era suficiente para paralisar tudo porque as pessoas
se destruíam sozinhas. Deu como exemplo o seguinte: qualquer um
que começasse a se destacar em algum trabalho comunitário seria
logo chamado de candidato a prefeito para que despertasse
naqueles que pretendiam candidatar-se, a preocupação com o
futuro concorrente. Aí então trabalhavam contra ele. O pessoal
da administração pública, vereadores e chefes partidários
passavam-lhe toda espécie de rasteira, negando-se ainda a
atendê-lo em seus pedidos em favor do bairro para destruí-lo
perante a população, só porque achavam que chegaram antes na
fila dos candidatos a prefeito. Como a população já tinha sido
privada da capacidade de reclamar e cooperar, viravam as costas
para o sujeito, acreditando nas futricas que lançavam contra
ele, negando-lhe qualquer apoio. Assim era mais um que se ia e
tudo ficava na mesma.
Outra artimanha do velho cacique, contada em meio a enormes
gargalhadas, era a cegueira seletiva que aplicava nas pessoas.
Produzia uma cegueira no cidadão que o impedia de ver só o que
ele, cacique, não queria que a pessoa visse. Por exemplo, os
policiais encarregados de manter a ordem para criar um clima
favorável aos turistas que deveriam trazer dinheiro para a
cidade, ficavam cegos em relação ao montão de mendigos que
perseguem as pessoas atrás de uns trocados, ou cegos quanto aos
motoristas de cidades do interior que ligam um som altíssimo nos
seus automóveis toda noite nas principais ruas da cidade,
embolando as calçadas e xingando as pessoas que estiverem a
passeio ou em suas casas que, aborrecidos e ofendidos vão-se
embora achando que a cidade não oferece segurança. Os policiais
são bem intencionados, mas o cacique se diverte criando neles a
cegueira seletiva porque isso reforça os efeitos da sua maldição
sobre a cidade.
Também se diverte muito com o golpe da cegueira aplicado na
privatização do espaço público, isto é, o que é de todos fica
sendo apenas de um, com a concordância e prejuízo de todos, e
todos riem. Funciona assim : vêm uns caras e montam um quiosque
no meio da calçada ou na beira da praia, de preferência em algum
lugar bonito e tranqüilo. A seguir, enchem a sua volta de mesas
e cadeiras, metem um som barulhento durante a noite toda até a
madrugada. Ninguém vê o abuso, mas o pessoal da cidade, os
moradores do lugar, todos se aborrecem. Sua paz vira um inferno
mas todos toleram porque dizem que a zorra é para alegrar os
turistas. E é aí que o cacique se diverte mais. Diz que
conseguiu pôr na cabeça das pessoas que aquela zorra atrai
turistas, e ninguém percebeu que é justamente o contrário,
espanta os visitantes.
Assim, os próprios chefes da cidade afugentam aqueles que tem
dinheiro e gostariam de gasta-lo em Ubatuba, ficando por aqui,
rebolando “quinem doidos nos quiosques”, como disse o velho
morubixaba, apenas as pessoas que andam de Kombi 79, Opala 68 e
Brasília qualquer ano. Esses não tem dinheiro nenhum mas como
são muito numerosos, enganam as pessoas da cidade que, sem saber
que estão afetadas pelo golpe da cegueira, dizem que o futuro
vai ser bom porque a cidade está cheia. Cheios ficaram aqueles
que viraram as costas para Ubatuba e foram gastar seu rico
dinheirinho noutras cidades do litoral, menos bonitas mas mais
organizadas e inteligentes, arrematou às gargalhadas o gigante
Cunhambebe.
Nesse momento, como o sol já estava querendo aparecer no
horizonte do mar do Itaguá, lançando uns raios de fogo contra as
nuvens ainda escuras da noite e fazendo as águas da baía
parecerem uma enorme planície negra, o cacique, voltando-se para
mim com um olhar sério e cansado, disse que estava na hora de
caminhar sozinho por aquela superfície em direção ao astro rei.
E foi-se. Ainda vi seu enorme vulto andando contra o vermelho da
alvorada quando parou, virou a cabeça em direção à praia e
gritou, “qualquer noite voltarei para contar mais uns truques
que faço com alguns chefes desse vilarejo, para que aceitem umas
galinhas e um pouco de peixe com farinha para mudar as leis e
desorganizar tudo, e ainda assim continuando a ser respeitados e
tratados como pessoas importantes”. Ouvi uma enorme gargalhada e
o perdi de vista.”
Renato Nunes
25/03/2005