A presença da língua tupi em
Ubatuba
Conheça o
significado dos nomes de alguns lugares de Ubatuba segundo o
idioma tupi-guarani
A língua portuguesa, apesar de
sua origem indo-européia, sofreu no Brasil a influência de
muitos outros idiomas, provenientes de nossos colonizadores, dos
escravos africanos e principalmente dos nossos ancestrais
indígenas. Dessa maneira, muitas palavras que compõem nosso
dia-a-dia têm origem na língua tupi. Como em Ubatuba houve uma
marcante presença indígena tupi (Tupinambá e Tupiniquim),a
cidade herdou uma variedade de nomes oriundos desses povos. Em
entrevista ao nosso jornal, o antropólogo e mestre em toponímia
(nominação de lugar) pela Universidade de São Paulo (USP),
Benedito Prezia, autor de livros sobre a questão indígena, além
de ter um trabalho junto às comunidades indígenas do Estado de
São Paulo, nos fala sobre a forte presença da língua tupi na
geografia ubatubense.
Quais foram os primeiros moradores de Ubatuba?
Foram os indígenas Tupinambás, conhecido também como Tamoios,
que ocuparam o litoral desde São Sebastião até Cabo Frio, no Rio
de Janeiro, com mais de 40 aldeias espalhadas ao longo do
litoral. Há uma certa dúvida quanto à localização da atual
Ubatuba, cuja referência encontramos no relato do alemão Hans
Staden. Aliás, nesse território Tupinambá, havia três aldeias
com esse nome: a aldeia onde está a atual Ubatuba, uma outra, em
frente à Ilha Grande, perto da atual Angra dos Reis, e uma
terceira, próximo à Niterói. Historiadores também indicam a
aldeia de Iperuy (ou Iperoig), onde ficou Anchieta durante a
Guerra dos Tamoios, como a ancestral da atual Ubatuba. Podemos
dizer que Yperuy deveria ser a aldeia principal, localizada na
colina, próximo ao centro de Ubatuba, e que a Ubatuba citada por
Staden, deveria ser uma aldeia de menor importância. Com o
extermínio dos Tupinambá, o nome Iperuy foi substituído pelo de
Ubatuba, tornando-se uma vila mestiça, como indígenas
Tupiniquins, alguns Tupinambá que se aliaram e alguns
portugueses.
Como você traduziria Iperoig e Ubatuba, já que há tantas
etimologias?
Iperuy (melhor que Iperoig) significa rio do tubarão (IPERU=
tubarão + Y= rio). O sufixo /ig/ foi criado pelos jesuítas para
representar o /i/ gutural indígena (Y).
As outras duas aldeias Ubatuba, com o tempo desapareceram.
Quanto ao significado de Ubatuba, na minha opinião é “lugar com
muita cana do tipo flecha” (UBA= cana + TUBA= muito, sufixo de
abundância). A tradução “lugar de muitas canoas” não tem
sentido, pois indicaria uma espécie de estaleiro, o que não
devia ocorrer entre os indígenas. O fato de existir três aldeias
com esse nome, mostra que essa vegetação (ubá) que, aliás, é
abundante na região, devia estar presente em outras partes do
litoral. A toponímia tupi é muito descritiva, como ocorre com
outros topônimos nessa linha, como Caraguatatuba (lugar com
muito caraguatá, planta da família das bromélias), Araçatuba
(lugar com muito araçá, que é da família da goiaba).
Que significado tem os nomes tupis de tantos bairros e praias
de Ubatuba?
Os nomes indígenas são quase sempre descritivos. Alguns são de
difíceis compreensão, pois a história do lugar se perdeu. Certos
nomes podemos ainda chegar a uma tradução, pela formação
etimológica deles. Por exemplo: Maranduba que quer dizer
‘notícia ruim’ (MARÃ= ruim, guerra + DUBA= notícia). Estaria
ligado a algum episódio guerreiro? Itamambuca, quer dizer ‘pedra
furada’ (ITA= pedra + MANBUC= furada); Ipiranguinha,
provavelmente derivado da palavra piranguim, que quer dizer ‘rio
vermelho, o pequeno’ (PIRANGA= vermelho + Y= rio + MIRIM/IM =
pequeno); Puruba, que deve significar ‘rosto do tubarão’ (IPERU=tubarão
+ OBA= rosto); Itaguá, quer dizer ‘buraco de pedra’ (ITA= pedra
+ GUA/QUARA= buraco), devendo indicar baía onde se localiza este
bairro; Prumirim, deve significar ‘rio do tubarão, o pequeno’ (IPERU=
tubarão + Y= rio + MIRIM= pequeno).
E caiçara? Por que recebemos este nome?
Vem da palavra tupi kaaysa, que significa cerca de galho, usada
para pegar peixe ou fortificação construída para defender a
aldeia. Caiçara passou a ser o homem que vive desse tipo de
pesca, capturando peixes nessa armadilha rudimentar, feita com
galhos de árvore do manguezal.
Para encerrar nossa conversa, nosso entrevistado, que é defensor
da causa indígena, nos traz essa bela frase do escritor João
Ribeiro, para nossa reflexão: Os conquistadores que tudo
destruíram, não puderam apagar do arvoredo, dos rios e das
montanhas essas vozes [nomes indígenas] claras e sonoras, esses
nomes de lugares que ainda hoje palpitam sobre os destroços dos
povos vencidos.
Camilo de Lellis Santos
Biólogo