O dia da “Lamparina elétrica” na minha
casa

Minha irmã achava que a
luz elétrica só funcionava à noite |
Lembro-me como se fosse hoje o
dia em que finalmente chegou a luz elétrica em minha humilde
casa no Araribá. As casas naquela época eram chamadas de “casas
de roceiros”, típica casa de taipa, caiada de cal que ficava
“arvinha, arvinha” com esta pintura. Por volta da década de
1980, o meu irmão mais velho puxou um bico de luz de sua casa
até a de mamãe. Vale lembrar de que a luz elétrica não abastecia
a totalidade das casas da região.
Era um tal de parente e vizinho ir a casa de quem tinha energia
em casa só para ver aquela coisa pequena e redonda ascender e
apagar como um vaga-lume, só que quando nós queríamos. Estávamos
então todos empolgados. Meu irmão dizia que a luz clareava como
o sol, minha irmã queria logo ouvir a radionovela, que até então
era a pilha, quatro pilhas enormes por sinal. O radio ficava
todo pomposo na sala e foi puxado mais um bico para ligar o
motoradio. Minha irmã achava que a luz elétrica só funcionava à
noite. Ela estava desesperada para ouvir o programa do Zé Bétio
da Radio Capital, é que naquela semana contava a inédita
história do “Menino da Porteira”, sensação da época, todos
choravam ouvindo os sons daquela história.
Bom! Depois de puxados os bicos de luz, todos esperavam a noite
para estrear a lamparina elétrica. Chegou o grande momento! Para
ligar a lâmpada alguém tinha de subir e rosquear a peça, quem se
habilitaria? Meu pai não teve duvida, pegou a cadeira e pediu
para mamãe rosquear que ele segurava. E então deu-se a luz! Oh,
quanta diferença! Deu para ver cada canto da sala, onde o fifó
ou a lamparina não clareava.
Estava tudo tão clarinho, mamãe dizia que estava mais claro que
a luz da lamparina a querosene. Papai e mamãe ficaram com os
olhos úmidos de emoção, não precisavam mais colocar a lamparina
de um lado para o outro com aquela fumaça negra que deixava
nosso nariz preto de fuligem. Agora não tinha mais perigo de
queimar a casa.
Ficamos por um bom tempo olhando para aquela bunda de vaga-lume
acesa dentro de casa. Era uma coisinha tão linda que tínhamos
medo de que ela acabasse e por um bom tempo a chamamos
carinhosamente de “lamparina elétrica”. Senti um alívio em
descobrir que em muitas outras casas acontecia o mesmo, a nossa
inocência muitas vezes nos pregava muitas peças.
Mas estas recordações nos trazem o sabor da verdadeira infância,
e pra você não traz boas recordações?
CRISTINA
APARECIDA DE OLIVEIRA