Gente da nossa história:
João Rosa, patriarca do Sertão da Quina

João Manoel dos Santos -
"João Rosa"
(1902 - 1999) |
Nascido em 07 de setembro de
1902 em meio as casas de pau-a-pique, roças e rios, o caiçara
João Manoel dos Santos, carinhosamente conhecido como João Rosa,
é considerado patriarca do Sertão da Quina. De família de
agricultores, caçadores, pescadores e artesãos, seu pai, Manoel
Gaspar dos Santos, a mãe, Rosa Félix de Jesus foram um dos
colonizadores da região por volta de 1850.
João Rosa foi um homem alto, de pele e olhos claros, de
musculatura forte, de passos firmes e determinados. Embora de
aparência bruta por conta do modo de vida da época, por dentro
havia um coração e um amor maior que seu peito. João sabia da
sua tarefa na comunidade. Ficou viúvo por três vezes e destes
matrimônios teve doze filhos, 43 netos, 72 bisnetos e 11
tataranetos.
Segundo Benedito Manoel dos Santos, 80, João Rosa tinha o
costume de marcar cada um novo membro da família para não perder
as contas. Existe um vídeo de um de seus últimos aniversários
aonde é possível ver grande parte da família reunida, falta
agora escolher um dos filhos para que esta tradição possa
continuar.
João Rosa teve uma contribuição importante na formação da
cultura, da educação, da construção do patrimônio imaterial e
material, da amizade, da camaradagem e da formação histórica e
religiosa desta localidade.
Homem destemido para o trabalho, filho atencioso, pai dedicado,
avô querido, bisavô herói e tataravô paciente, chegou a ir
várias vezes a pé para Santos para trabalhar nos bananais. A
saudade ainda é latente à maioria dos moradores da região e da
cidade. Participou indiretamente da Revolução de 1936, colaborou
com a catástrofe de Caraguatatuba, buscava ajuda em Ubatuba,
levava nas costas barris de pinga do sertão até a Maranduba para
serem vendidos em Santos. Saía a pé em busca de ajuda na cidade
de Caraguatatuba, já que Ubatuba, mesmo naquela época, negava o
atendimento.
Certa vez, com outros moradores, reclamou ao então deputado
estadual Alberto Santos, sobre a situação do acesso principal do
bairro, também participou do processo de tentativa de
emancipação da região na década de 1940. Trabalhou ainda na obra
da construção das duas primeiras capelas, na primeira ponte, na
abertura de estradas. Fez muita amizade em Ubatuba, um deles foi
seu Juquinha, antigo farmacêutico do centro da cidade,
antecessor de seu filhinho, colaborou na abertura de vários
acessos, era co-organizador dos eventos religiosos. Era o
primeiro a receber as autoridades, organizador de vários
mutirões, sua moradia era a primeira a abrir as portas para os
visitantes, os padres e missionários, foi ele quem inaugurou a
primeira capela em 1917, a iluminação pública em frente à
igreja. A primeira bacia de privada, que veio de Santos, foi
instalada em sua residência para atender os missionários.
João Rosa é símbolo da resistência histórica, cultural e
religiosa, já que foi uma das testemunha da aparição da jovem
mulher em 1915. Na década de 1990 temendo a tomada do morro de
Emaús pela SABESP, João Rosa resolveu contar parte do segredo da
Santa e da importância do Morro do Emaús (Morro do São
Cruzeiro). Felizmente a companhia respeitou seus moradores e
desistiu da obra. Foi, para todos os moradores, o evento de
maior tensão.
Considerado uma biblioteca ambulante, João Rosa foi fonte de
inspiração de vários historiadores e diversas pesquisas. Sua
simplicidade refletia na liberdade de um bom bate papo, na
transmissão de seu etnoconhecimento, na informação específica
sobre o tempo, a fauna, flora, o modo de vida, na surpresa de
sua sabedoria e no acerto de seus conselhos. Foi através dele
que foi levantado o primeiro histórico sobre a aparição de Nossa
Senhora das Graças, que até então era considerado um mistério.
A ele, ainda em vida, fora perguntado se gostaria de nascer na
década de 1990, ele responde que não e reforça sua opinião
dizendo: “Deus me deu mais do que eu precisava e muito mais do
que eu merecia, agora é só esperar Ele me chamar”, e Ele chamou.
Foi no dia 19 de setembro de 1999. Neste dia o tempo parou para
despedir do tio, do pai, do avô, do amigo, do compadre João
Rosa.
Sentir apenas saudades deste cidadão é pouco ainda pelo o que
ele fez a nossa região. Mesmo singela, João Rosa teve como
homenagem, através de uma Lei Municipal, a colocação de seu nome
na ponte sobre o Rio Maranduba, ou rio da Laje e que até o
momento a prefeitura ainda não colocou a devida placa, assim
como em outras homenagens a outros amigos de João Rosa.
EZEQUIEL DOS
SANTOS