Grupo Escolar da Maranduba
de 1932

Bem vestido o primeiro
professor do Grupo Escolar da Maranduba, Ary Bocuhy,
posa em frente a escola em abril de 1941 |
“O galo cantava às quatro da
manhã, as cinco nossas mães nos acordavam, os pais iam pra roça
ou pro mar, o café de cana já estava no bule em cima do fogão a
lenha, a cumbuca de piché/baticuí (pó de milho extraído através
da torragem de grãos em panela de barro ou ferro, socados em
pilão, por vezes misturados com açúcar mascavo ou cristal, por
vezes com sal, utilizados ainda para bolos e outros pratos)
acompanhava o peixe seco ao lado da caneca de argate.
Colocávamos a calça meio amarela, meio cáqui, camisa branca,
descalço e lá íamos pela trilha, em duas horas de caminhada
chegávamos à escola”, fala
Sebastião Pedro de Oliveira, 85,
aluno do primeiro grupo escolar da região.
Sebastião se refere à primeira sala de aulas da Maranduba que
era exclusivo para alunos masculinos, diferente do grupo da Rita
Carlota, que era mista. O grupo foi constituído em meados de
1920, na sala da casa de Bazilio Zacarias, acima da casa do
pescador Chico Romão. Por lá passaram três professores: Gasparino e Valter de Pirassununga e Ary Bocuhy de Santa
Izabel-SP. Este último vinha de sua cidade até São Paulo, descia
até Santos, chegava a Bertioga, pegava um barco que o trazia até
a Maranduba.
Para ir embora fazia o trajeto contrário. O término da escola
foi em meados da década de 1950. O grupo, como chamavam a sala,
atendia alunos da Caçandoca, Rio da Prata, Tabatinga, Sertão da
Quina e Maranduba. Para chegar à escola, Tião saía do Sertão
pela trilha até a Maranduba, depois caminhavam pela praia,
atravessavam a barra do Rio Maranduba através de um balseiro e
subiam o morro até a escola. O caminho era cheio de armadilhas
feitas pelos alunos, como todos eram “arteiros” (bagunceiros),
muitos ficavam de castigo na escola e em casa. Do lado da escola
havia um pequeno riacho que era usado por outros moradores e
pela escola, havia ainda uma pedra grande no local.
Colegas de Classe
Sebastião, com oito anos, entrou na escola em 1932 e se lembra
dos companheiros de aulas, que eram:
Manoel Pedro, João Donato,
Roldão da Mata, João Firmino, José Correia, Miguel Correia,
Manoel do Prado, Antonio Félix, Jorge da Izolina, Argemiro da
Maranduba, Argemiro da Caçandoca (melhor desenhista), Dito
Pampeca, Lindolfo Daniel, Dito Manoel, Argemiro Félix, Benedito
Jorge, Belmiro e Anastácio Quirino.
As carteiras eram de madeira rústica com gavetas, dentro o
tinteiro, caneta de pena e folhas de papel amareladas sem pauta,
sentavam duas pessoas e o recreio era de meia hora. Expectativa
mesmo é quando o professor trazia algum livro com gravuras,
todos queriam pegar no livro.
Banho Pelado
Lá ensinavam a tomar banho, a boa educação com os mais velhos e
até a pular corretamente de mergulho no rio. Nas aulas no rio da
Maranduba, eram poucos os alunos que tinham calção, a maioria
tomava banho pelado. Para chegar a escola pela praia, existia
uma balsa de nome Vai e Vem e o responsável era um senhor
conhecido como Tabatinga, que substituía o professor quando
faltava. Antes dele o balseiro era o João Zacarias.
As aulas eram de segunda a sexta e começavam as oito da manhã e
terminavam ao meio dia, quem não fizesse as obrigações de casa,
ficava sem o recreio, quem fizesse bagunça também. Na saída, pra
matar a fome, os alunos quebravam cana no caminho, pegavam
laranja e bananas. Chegavam em casa, almoçavam e iam para a
roça. Sebastião lembra ainda que no lugar vivia o Bazilio
Zacarias, o Quirino Zacarias, a Rita Romão e a Sinflorosa.
O local hoje, confirmado por dona Leopoldina Araújo, 94,
encontra-se apenas o alicerce da antiga escola, mostrada por
Benedita Araújo, 60, filha de Leopoldina. Existiam ainda outros
dois caminhos para chegar a escola, a trilha da caçandoca, outra
pela trilha na lateral do morro da Maranduba, até ao Rio da
Prata e a Tabatinga. Este último de fácil visualização, após
passar pela Unidade Mista e a Regional Sul em sentido a rodovia
Caraguá-Ubatuba, é só olha para cima no morro, você vai ver um
risco, um trecho da servidão de passagem que levava a escola,
neste caminho existem marcas das primeiras casas da região, do
seu período de formação cultural, dos caminhos antigos e do
povoamento do Brasil.
EZEQUIEL DOS
SANTOS