Gente da nossa história
Chico Romão, um homem do mar

Francisco Lopes de Araújo
"Chico Romão"
(1911 - 2003) |
Francisco Lopes de Araújo
(Chico Romão) nasceu em 26 de julho de 1911, ano em que afundava
o Titanic, maior navio do mundo. Nasceu à beira mar em uma casa
humilde. Ao redor se via o jundú avançar o quintal, o vento
balançar as folhas das bananeiras, onde a melodia que o fazia
dormir era o som do mar, do vento, das aves, das trovoadas, da
areia no jundú da praia.
Assim crescia o exemplo de homem do mar, o nosso Jacque Costeau
Tupiniquim. A relação com a natureza ditava as regras e dentro
destas normas Chico crescia e aprendia. Cedo descobriu suas duas
maiores paixões, seus amores. Casou-se com as duas. Uma era o
mar, e outra era Dona Leopoldina Francisca de Araújo, de onde
tiveram 12 filhos: Duas Marias (uma falecida), Sebastiana,
Benedita, Lídia, Anísio, Izabel, e os que já foram: Terezinha,
Terezina, Renato, Sebastião e Bernadete, dos quais muitos
filhos, netos, bisnetos o alegraram.
Chico Romão morou até 1975 no local onde existe hoje uma marina,
entre a praia da Maranduba e a curva da SP-55, próximo as pontes
do rio Maranduba. Já naquela época a especulação imobiliária, a
conivência de membros do judiciário e do executivo, utilizava-se
de meios obscuros para legalizar os roubos de terras e de
violência policial. Chico Romão então recebeu uma ordem de
despejo, para que no mesmo dia desocupasse o que havia
conquistado com tanto suor.
Não querendo ver a partida de seu patrimônio, Chico então pegou
sua canoa, lançou a rede ao mar e depois voltou, entrou pela
barra do rio e foi à casa da irmã. Os amigos e parentes lembram
de que o despejo fora como uma máquina que arrancou uma frondosa
árvore e jogou sem explicação ao mar. Lembram ainda de que a
truculência policial se estendeu aos turistas que no local
acampavam. Chutaram suas barracas, empurravam as pessoas, todos
foram tratados pior de que animais sem dono. Mesmo com o coração
em prantos, ergueu a cabeça e recomeçou.
Sua casa, em quatro finais de semana, foi construída com a ajuda
de amigos, parentes, filhos e genros em regime de mutirão. A
filha Izabel pescava com o pai, já que tinham de economizar para
reerguer a vida e a casa. Chico foi amigo, foi pai, foi
conselheiro por muitas vezes, muitos se lembram de quando ele
oferecia seu chapéu para dar sorte na pescaria. Para os
pescadores era uma honra a consultoria gratuita de Chico, além
da sua companhia que era mais do que agradável.
Para Aristides Félix dos Santos (Canéco), ele sempre foi um
caiçara mão aberta, alegre, divertido e sorridente. “Lembro-me
de quando ele morava do outro lado da barra, do lado de cá tinha
o armazém do Chico da Barra e a escola da Dona Brandina”,
termina.
Por vezes o peixe era vendido por cento (cem unidades) e quem
comprava um cento de peixes do Chico Romão, levava outro cento
de presente. Quem não tinha dinheiro levava de graça o peixe.
Aos companheiros de pesca, ele repartia o quinhão certinho.
Pedro Félix dos Santos, quando moleque a mando de seu pai, foi
na barra do Rio Maranduba comprar peixes e então recebeu uma
proposta irrecusável: trabalhar com Chico Romão. Pedro Felix
lembra com emoção: “Pesquei mais de vinte anos com ele. Desde
moleque a gente aprendia cada dia uma coisa nova sobre o mar e o
tempo. Ele era valente no mar, pescava de tudo e com todo tipo
de rede, tresmalho, picaré, malhão, arrasto e espinhel, cada
rede ou linhada para um tipo de peixe e sua época certa”,
finaliza o aluno.
Bastava o tempo ficar estranho para todos fossem até Chico
consultá-lo sobre o tempo e tomar seus conselhos. Chico gostava
da brisa que vinha do mar e também das poucas caminhadas até a
praia.
Todo dia 10 de outubro era aniversário de casamento de Chico e
Leopoldina. O aniversário de bodas de ouro foi uma alegria só. O
casamento foi na capela da Maranduba, com três dias de festa com
a família inteira. Já as bodas de esmeralda foi em Aparecida do
Norte. Lotaram um ônibus do litoral e outro que saiu da Capital.
Na chegada uma grande faixa com os dizeres: “Viemos
homenageá-los pelas bodas de esmeralda”. Chico trouxe a faixa
para frente de sua casa onde pendurou para que todos pudessem
ver.
Já mais cansado, as bodas de diamante, foi um grande almoço em
sua casa. Adivinhem o que foi servido? Isto mesmo, frutos do
mar! Todo tipo de frutos do mar ao homem que sabia o que estava
comendo.
Muito debilitado, Chico chegou a comemorar em vida ainda 66 anos
de casamento. Por ser uma biblioteca ambulante, uma japonesa que
muito o visitava, publicou um livro com o titulo “Origem”, e
dentro dele havia um texto e uma foto deste honrado pescador.
Infelizmente Chico não conseguiu ver esta obra. Ele se foi de
uma forma como sempre viveu, olhando pro mar.
No seu último dia no hospital, ele perguntou aos familiares o
que seria aquela fumaça lá fora. “Será que a Leopoldina ta
queimando panela?” Responde a filha Benê: “Pai, é neblina do
mar, que vem pela boca da barra, é uma serração”. Confortado,
Chico se sentou na varanda de sua casa, abaixou suavemente sua
cabeça para olhar a frente da aba de seu chapéu como se
estivesse avistando o céu, o tempo e o mar. Responde: “Pois é, o
tempo ta virando!”
Após essa conversa DEUS o levou para o paraíso. Isso foi em 02
de janeiro de 2003. O que será que realmente ele via por trás
daqueles pequenos olhos? Que segredos ele levou?
Ah! Ia me esquecendo, no último dia 03 de março, dona
Leopoldina, exemplo de filha, mãe, mulher, companheira, amiga e
conselheira fez noventa anos de vida, quase um século de
existência. Desejamos a dona Leopoldina, muitas felicidades,
muitos anos de vida e sinceramente meus PARABÉNS e muito
obrigado por tudo.
EZEQUIEL DOS
SANTOS