Cachoeira da Bacia: café,
banana e muita aventura

O conjunto da Cachoeira
da Bacia é formado por várias corredeiras |
Cravados no fundo do vale do
bairro do Corcovado, o conjunto da Cachoeira da Bacia é muito
visitada por conta de suas águas límpidas e gelada, o acesso é
por trilhas beirando o rio e passa por áreas particulares e
trechos do parque estadual.
Para chegar ao local é necessário seguir por um trecho de uma
estrada antiga até o inicio da trilha que leva as corredeiras da
cachoeira. O local foi palco de grandes roças, no local se
plantava de tudo: milho, café, cana, batata doce, feijão,
banana, arroz e tudo mais que era necessário para a manutenção
da casa, os antigos moradores da localidade compravam apenas o
sal grosso, a roupa e o querosene.
O local é considerado de fácil acesso e de nenhuma dificuldade,
apenas requer os cuidados necessários para a segurança, as
pedras, que propiciam a visualização de vários desenhos naturais
são muito escorregadias, principalmente quando chove, o conjunto
de poços e pequenas quedas d´aguas mostram um espetáculo a
parte, a cada vinte ou cinqüenta metros existe um local para uma
massagem sem precedentes e um relaxante banho, os poços são em
sua maioria rasos e de rara beleza pela transparência de suas
águas.
Sesmaria
Vale lembrar que o local já foi parte de uma Sesmaria com
escravos e tudo, no local foram realizadas plantações de cana de
açúcar, depois café, depois mandioca, depois banana e depois as
várias culturas agricultáveis para a manutenção do corpo e da
cultura local.
Existem várias trilhas antigas, ainda do período das trocas de
mercadorias entre o litoral e o planalto, aonde as pessoas iam a
pé a várias regiões e localidades, principalmente para a Vargem
Grande, as trilhas levam ainda para os bairros da
Lagoinha,
Sertão do Ingá, Sertão da Quina, para o pico do Corcovado e em
direção ao Ipiranguinha e daí ao Centro da cidade.

O
conjunto de poços e pequenas quedas dáguas mostram um
espetáculo a parte |
O senhor Antonio Inácio, 77, que possui um etnoconhecimento
invejável, é testemunha viva deste período, ele começou sua
atividade há mais de 65 anos na região, trabalhou na derrubada
de mata para a plantação das várias culturas, as roças eram
enormes e mantinham muitos empregos. Ele lembra que já existiam
pés de café na região e as roças iam das laterais dos rios até
os morros.
Seu Antonio além de agricultor foi um dos primeiros guias da
localidade há cinqüenta anos, ele levava alemães, ingleses,
franceses, espanhóis e brasileiros para a observação de aves,
para a visita ao pico do Corcovado, também levou muitos
pesquisadores e desbravadores de ouro, granito verde Ubatuba e
outras pedras. “Cheguei a plantar 4.500 pés de café, colhia
cerca de oito toneladas de bananas para levar a São Paulo e a
água da bacia era em maior quantidade do que agora”, comenta Seu
Antonio.
Natureza e história se fundem num só local
No conjunto da Bacia também é
muito aparente as maravilhosas árvores, como os pés de Cambucá,
que podem ter sido plantadas pelos antigos moradores, existem
também muitas delas caídas naturalmente entre as trilhas e as
pedras dificultando o passeio. Para quem gosta de observar
árvores, o local guarda inúmeras espécies nativas e plantadas,
que para os moradores tradicionais tem um grande valor cultural.
O silencio quando não é quebrado pelo barulho das águas, é
quebrado pelos outros sons da natureza. As aves e os animais,
pequenos ou grandes também dão o ar da graça, mas para isto é
bom ter muita paciência e destreza para a observação e audição.
As laterais das quedas da bacia também mostram as mais
variedades espécies de bromélias, orquídeas e espécies
rasteiras, que como sabemos deve permanecer no local.
O local foi propriedade da família Alves Coelho (Benedito, João,
José, Etelvina, Teodoro, Daniel, Paulo Lamosa, Maria Virginia,
Ana Lacrina entre outros) uma das mais antigas da localidade,
que depois vendeu aos a japoneses da família Ikeda e é parte de
antigo loteamento chamado de Gamboa.
Plantações
Existem ainda em meio a mata pés de café provavelmente ainda do
período das Sesmarias e muitos pés de bananas das grandes
plantações. Antonio Correia de Oliveira, 63, lembra que buscava
de caminhão cerca de 100 dúzias de bananas por quinzena e que
seu pai já buscava banana no local a muito mais tempo de que
ele. Os bananais funcionaram ainda até o final da década de 1980
e terminou por conta das restrições ambientais, por conta disso
muitas famílias ficaram na miséria e tiveram que vender suas
terras a preço de “banana” aos loteadores, comenta Antonio
Correia.
As plantações foram fundamentais para os animais, hoje eles
descem para se alimentarem do que sobrou das grandes roças,
moradores mantém pés de frutas no quintal e em outras
proximidades a fim de alimentar as aves, alguns animais ainda
levam alimentos a seus filhotes, isto acontece principalmente em
épocas de frio, é parte do conhecimento nativo, aquele que não
se aprende na faculdade.
Existe muitos vestígios de casas no fundo do local, algumas de
fácil visualização e outras cobertas pelos capins, também existe
um viradouro para a manobra de caminhões de embarque de bananas.
O local, embora de fácil acesso, deve ser visitado com muito
cuidado, é comum moradores encontrarem visitantes perdidos entre
as trilhas. A região tem muitas cobras e é até fácil se perder
nas trilhas, além das restrições ambientais como cortar árvores
e coletar espécimes protegidas, é mais seguro a contratação de
guia local, que realmente providencie segurança não só para os
visitantes, quanto para a fauna e flora local, ele também
verificará a possibilidade da entrada ou não das áreas que são
particulares.
A comunidade do Corcovado tem sua rede de captação de água
própria e não deixou que a Sabesp fizesse uma represa no
conjunto da Cachoeira da Bacia para não descaracterizar o local,
existem ainda marcas de furos nas pedras do período de estudos
para a implantação do projeto.
Vale lembrar que não é legal deixar outra coisa senão pegadas,
porque o lixo urbano não combina com natureza, ainda mais neste
pedaço de paraíso.
EZEQUIEL DOS SANTOS