Gente da nossa história:
Andrelino Perez - O homem São Cruzeiro

Andrelino Perez
(1906 - 1987) |
Andrelino Perez nasceu no
trecho compreendido entre a
Lagoinha e o
Bonete em 14 de
fevereiro de 1906, filho de Valentim Perez, um viajante do mar e
de Maria Francisca da Conceição uma lavradora e dona de casa.
Desde menino souberam que ele seria diferente, e realmente foi,
não só pela estatura, mas pelo coração, pela alma, pela honradez
e pela educação que possuía. Casou-se com Georgina Maria de
Oliveira. Deste matrimônio nasceram os filhos Manoel, Maria,
Benedito, Francisca, Rosa e Edna. Muitos netos e bisnetos
caminham hoje pelas estradas que Andrelino ainda viu “carreiros”
e trilhas. Sua família sempre foi sua primeira paixão. Chegou a
morar na Caçandoca. Os mais respeitados membros do Sapé e da
Maranduba na época eram: Andrelino, Nestor,
Maria Balio e João
Paulo.
Devoto de Nossa Senhora Aparecida, ele ajudava na acolhida do
pessoal da Folia de Reis e do Divino. Para ele a chegada desta
tradição religiosa e cultural era uma honra e alimentava as
esperanças na lida do dia-a-dia. Na época a sua casa era pequena
e não cabia a acolhida, mais ele colaborava para que os foliões
ficassem na casa do compadre Nestor ou Leôncio. Andrelino
trabalhou por muitos anos nos bananais em Santos, época que iam
a pé e levavam em média quatro dias até o serviço.
Quem o conheceu sabe que ele não era muito de pesca, mas
presenciaram-no pescando nas puxadas de rede. Em Santos ele
trabalhava muito, usava “Sapatão Bandarra” e ou “Colordino”
(sapatos confeccionados de couro cru, costurado grosseiramente e
com uma sola grossa e alta, que de tão duro machucava os pés e
só depois de muito tempo ele amaciava) que duravam muito tempo,
cerca de uma década de uso. Quando chegou aos bananais ele se
assustou com o número de “musquitinho pórva” (mosquito pólvora),
que de tanto, chegavam a “carregar” uma galinha grande em noite
de lua cheia.
Certa vez fez uma aposta com os camaradas dos bananais de
quantos cachos de bananas cada um conseguia levantar (jogar no
ombro). Muitos foram às especulações e risos, mas ela conseguiu
ganhar aposta, conseguiu jogar ao ombro 17 cachos de bananas.
Mas este monte de cachos nos ombros às vezes o atrapalhava. É
que alguns moleques da época, que hoje são avós, se escondiam
nos bananais e esperavam seu Andrelino chegar perto das
pinguelas que atravessavam o Rio do Boi e ao pisar no meio da
pequena ponte, os moleques arteiros balançavam a ponte até
Andrelino cair com os cachos e tudo na água. Pensa num homem
bravo! Pensa!
Quando não era isto amarravam o capim para ele, e outros caírem
no caminho. Ô molecada arteira! Hoje “ralham” com os netos.
Andrelino gostava mesmo é da roça. Mesmo quando sofreu o
primeiro infarto ficava até a noite na roça, a esposa ia
buscá-lo. Na Maranduba e no Ingá ele saía de casa no cerão da
noite e voltava depois que as galinhas subiam no poleiro. No
Ingá sua roça foi onde atualmente é o campo do Campo Beira Rio,
sua casa de farinha ficava onde é a nascente. Certa vez comprou
um cavalo do compadre Mané Belo para ajudá-lo a carregar os
cachos de bananas. O cavalo na realidade o deixava furioso, é
que o cavalo era velho demais para carregar peso e segundo o
próprio Andrelino ele carregava bananas por dez metros e caía no
chão, “arriava”. Andrelino dizia que já teve reumatismo,
cansaço, mas o cavalo ia matá-lo, de raiva. Nesta roça no Ingá
ele plantava de tudo. Tinha milho, feijão, arroz, batata, cana,
mandioca, cará, mamão, não faltava nada.
Andrelino foi um homem acima da média de estatura para os homens
da época, tinha ainda uma força física invejável e uma força de
vontade que sempre utilizava como exemplo para o bem, para a
união e a construção da comunidade. Sua estatura rendeu-lhe o
apelido de São Cruzeiro, quando ele vinha pela praia da
Lagoinha
até o Sapé, todos sabiam quem era, diziam: “Lá vem o São
Cruzeiro no meio daqueles homens.”
Na Maranduba, por volta de 1952, na Rua do Eixo existia a
“venda” do Hipólito Alexandre da Cruz. Num dado momento os
compadres Xico Pinhai estranhou Élcio Salomão. Começou a briga
dentro da venda, derrubaram tudo que estava de pé. Vendo a
situação Andrelino calmamente entrou no recinto, catou o Chico
pelo “cóis” da calça e o lançou por cima do balcão que caiu na
entrada do estabelecimento. O outro viu a cena, se levantou e
caminhou para fora, ficou com medo de ser lançado por cima do
balcão por Andrelino. A briga acabou ali como se não tivesse
começado. “Que pôca vergonha, lhéi só, á mode!”.
Seu Andrelino por fora era assim fisicamente: magro, alto e
muito forte, mas dentro de toda esta rigidez escondia um homem
bom que tinha como segunda paixão a roça. Justo, sério, calmo,
gostava das coisas certas, não levava desaforo pra casa, tirava
a camisa para oferecer a quem não tinha. Homem de passos largos
e firmes não tinha ninguém melhor para cobrir uma casa de sapé,
o acabamento não tinha igual. Trazia nos ombros cargas de lenha
que um homem comum não conseguia carregar.
Contador de histórias, que mesmo não sabendo ler pedia aos
amigos que compravam livros de cordel em Santos para que
contasse a ele a história. Ele repetia a todos da rua os contos
que ouvia naquela cidade. Não eram poucas histórias, ele
lembrava de todas. Mas infelizmente a sua própria história não
conseguiu contar. Seus contos da vida real cessaram no dia 25 de
setembro de 1987. Aqueles olhos que viram tanto sofrimento, mas
também tanta alegria fecharam-se para sempre. Parece que até os
bananais, as roças sentiram o trágico dia. Um infarto levou este
homem de fé e de muita coragem, que nos dias mais difíceis não
fez faltar o essencial, carinho e muito amor em tudo que fazia.
Não tive o privilégio de tê-lo conhecido, mas a emoção de quem
contou parte de sua história me fez refletir sobre os homens
bons que aqui existiram e que merecem todo o nosso respeito e
carinho. Neste final, tomo agora a liberdade de pedir a sua
benção seu Andrelino e muito obrigado por contribuir na formação
de nossa história e de nossas vidas. Que Deus o abençoe.
EZEQUIEL DOS
SANTOS